

STATEMENT
Eu costuro coisas. Metafórica e materialmente. Minha prática artística investiga a ontologia da imagem através da collage, compreendendo-a não apenas como técnica, mas como um processo existencial de costura material e simbólica. Ao unir fragmentos — sejam eles tecidos de família, fotografias de arquivo, objetos encontrados ou elementos digitais — busco reconstruir novos universos que abriguem narrativas sobre o que me atravessa. Meu trabalho é um convite ao tempo lento, uma resistência à efemeridade contemporânea, onde a imagem pura não é o destino final, mas o ponto de partida para uma investigação profunda sobre a condição humana.
O Palimpsesto da Memória e do Tempo. A collage, em minha produção, atua como uma ferramenta de arqueologia afetiva. Utilizo a justaposição de camadas para indagar sobre as habilidades da memória: sua capacidade de reter, mas também de transformar e omitir. Através de intervenções físicas, digitais ou destrutivas, exploro a percepção da passagem do tempo, tratando a imperfeição como o retrato mais fiel da nossa humanidade. Obras como MOTHERHOOD e 3x4 exemplificam esse percurso, onde o suporte têxtil dialoga com a fotografia para expandir os limites do pertencimento e da herança.
Identidade Feminina e Dinâmicas de Poder. Central à minha pesquisa está a identidade feminina e as estruturas de poder que a moldam. Minha trajetória, marcada pelo trânsito entre o Brasil e a Itália e por uma compreensão precoce da distinção entre Direito e Justiça, reflete-se na forma como desconstruo e recomponho o corpo e, principalmente, o papel da mulher na sociedade. Investigo o tecido social construído pelas dinâmicas de poder também em sua literalidade, utilizando tradições manuais — historicamente relegadas ao universo doméstico — para tensionar a relação entre o íntimo e o político. O gesto do bordado, da collage e do registro fotográfico tornam-se, assim, atos de reivindicação do direito de escolha e de fala.
A Poética do Encontro. Minha produção transita entre o analógico e o digital, entre a luz e a sombra, acreditando que o conhecimento e a arte dependem desse contraste para existir. Ao oferecer ao espectador uma obra que é, simultaneamente, um ponto de encontro e uma inquietação, busco transformá-lo de observador em parte ativa. Para mim, a arte serve como o território onde as fronteiras entre o pessoal e o coletivo se dissolvem, estimulando uma revisão das próprias memórias e um questionamento das estruturas que sustentam nossas relações e histórias pessoais.
