THE LAST DANCE
- Madame Pagu
- 14 de jan.
- 3 min de leitura
CORINE BORGNET: Arte Contemporânea

Cannes é muito mais do que cinema e glamour. Em meio às ruas históricas do Suquet des Artistes, um antigo morgue se transforma em palco para uma experiência artística única: a exposição The Last Dance, de Corine Borgnet. Entre luxo e ossos, a artista francesa nos convida a refletir sobre vida, morte e vaidade com uma elegância perturbadora, criando um diálogo entre beleza e efemeridade que desafia convenções e provoca muito os sentidos.
Ciao 2025
Fui começar minha despedida de 2025 em Cannes, na Riviera Francesa. O lugar é bem conhecido por conta do Festival de Cinema, mas além de ser um destino fascinante para o verão, também é uma ótima opção para o inverno (especialmente para quem mora em uma região muito fria e quer ver um pouquinho de sol e céu azul).
Sempre fico de olho nas exposições que posso ver quando viajo. Aqui na Europa acaba sendo mais fácil que no Brasil, pois mesmo cidades pequenas recebem nomes importantes da arte. Além disso, buscar por mostras de artistas que não são tão conhecidos também pode ser uma experiência interessante.

Morgue
Fui conhecer o Suquet des Artistes, um bairro de Cannes conhecido por suas ruas de paralelepípedos e vistas panorâmicas do Mediterrâneo. A área é famosa por suas galerias de arte, estúdios de artistas e uma atmosfera vibrante. Lá, no espaço onde, antigamente, funcionava a morgue (termo em francês para necrotério), e hoje funciona como um local de exposições, além do atelier de um colagista fantástico (sobre o qual vou contar em outro post), pude ver de perto o trabalho de Corine Borgnet em mostra: The Last Dance.

A exposição que encanta
Quando penso no local (antigo necrotério) e no título da mostra (A Última Dança, em tradução livre), já intuo um simbolismo muito relevante, porque o cenário subterrâneo, sombrio e silencioso, funciona como extensão natural do discurso da artista, que explora os códigos da vanitas com ironia e elegância. Além disso, o título — The Last Dance — sugere uma reverência final, um passo à beira do abismo.
A artista transforma o local em um cabinet de curiosités (coleção de objetos raros e extraordinários), criando uma experiência imersiva que mistura crítica social e reflexão existencial sobre a efemeridade, a memória e a fragilidade da existência.
Ao entrar no espaço expositivo, a atmosfera é quase ritualística: paredes brancas onde as obras de Borgnet ocupam o ambiente com uma força simbólica arrebatadora. Cada peça parece dialogar com a história do lugar.
Ela usa materiais cotidianos (ossos de aves, flores, cera de velas, post-it e objetos encontrados) e consegue revelar uma estética ao mesmo tempo poética e perturbadora, tornando o banal mais que precioso.
A mostra reúne esculturas, desenhos, fotografias, vídeos e instalações sonoras, que nos empurra a uma viagem entre luxo e ossos, festa e silêncio, eros e thanatos, e nos aproxima do movimento dessacralizador nas artes.

Sobre a artista
Corine Borgnet nasceu na França (1963) e estudou na École des Beaux-Arts de Poitiers. Em 1996, participou de uma residência artística no Cultural Center Altos de Chavón, ligado à Parsons School of Design, na República Dominicana. Viveu em Nova York por alguns anos e, desde 2002, trabalha e reside em Paris. Ela recusa um estilo fixo, preferindo uma liberdade radical que privilegia a ideia sobre a técnica. Sua obra é vista como salutar, uma resposta existencial que transforma a angústia em ironia. Sua carreira internacional inclui exposições nos Estados Unidos (ONU, Columbia University, The Phatory Gallery), Europa e Ásia, consolidando-se como uma artista plástica de linguagem singular.

Quem precisa de um estilo único?
Esse tipo de experiência é sempre revelador para nós, artistas. Muitas vezes em nosso percurso de formação somos levadas a nos concentrar em um único caminho, mesmo sabendo que essa estrada não é o bastante para comunicar o que precisamos através da arte.
Eu prefiro o encantamento da experiência com os temas e materiais que me chamam, do processo, do tempo da obra e do meu próprio tempo de produção. Acredito veementemente que essa é a melhor trajetória para o desenvolvimento dos meus projetos, para minhas pesquisas dos vários códigos e símbolos que nossa sociedade nos oferece como dogmas, mas que, na verdade, são somente regras transitórias.

E se você gostou deste post, talvez se interesse em conhecer outras artistas incríveis que encontrei nas minhas andanças. E, claro, fique à vontade para deixar sugestões de outros nomes de artistas que gostaria de ver por aqui.
Bejim,







Nossa que momento especial, tanto pela fuga do frio, quanto pelo encontro caloroso com a obra linda de Borgnet. E uqe bom, temos sim permissão do mundo das artes a seguir diversos caminhos que existem dentro de nós. Ah, adorei a fotografia do texto! bjim