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THE LAST DANCE

CORINE BORGNET: Arte Contemporânea



Letreiro monumental com a palavra "CANNES" em letras grandes e brancas, com uma textura que lembra uma trama de fios ou pequenos ossos entrelaçados. O letreiro está posicionado sobre um muro de pedras rústicas, emoldurado por grandes pinheiros de copas densas sob um céu claro de fim de tarde.

Cannes é muito mais do que cinema e glamour. Em meio às ruas históricas do Suquet des Artistes, um antigo morgue se transforma em palco para uma experiência artística única: a exposição The Last Dance, de Corine Borgnet. Entre luxo e ossos, a artista francesa nos convida a refletir sobre vida, morte e vaidade com uma elegância perturbadora, criando um diálogo entre beleza e efemeridade que desafia convenções e provoca muito os sentidos.



Ciao 2025

Fui começar minha despedida de 2025 em Cannes, na Riviera Francesa. O lugar é bem conhecido por conta do Festival de Cinema, mas além de ser um destino fascinante para o verão, também é uma ótima opção para o inverno (especialmente para quem mora em uma região muito fria e quer ver um pouquinho de sol e céu azul).


Sempre fico de olho nas exposições que posso ver quando viajo. Aqui na Europa acaba sendo mais fácil que no Brasil, pois mesmo cidades pequenas recebem nomes importantes da arte. Além disso, buscar por mostras de artistas que não são tão conhecidos também pode ser uma experiência interessante.


Close-up de um sapato de salto alto estilo stiletto, exposto em uma vitrine de vidro. O sapato é uma obra de arte construída inteiramente com uma estrutura intrincada de pequenos ossos brancos fundidos, criando um padrão rendado e frágil. O reflexo do objeto é visível no vidro ao fundo.

Morgue

Fui conhecer o Suquet des Artistes, um bairro de Cannes conhecido por suas ruas de paralelepípedos e vistas panorâmicas do Mediterrâneo. A área é famosa por suas galerias de arte, estúdios de artistas e uma atmosfera vibrante. Lá, no espaço onde, antigamente, funcionava a morgue (termo em francês para necrotério), e hoje funciona como um local de exposições, além do atelier de um colagista fantástico (sobre o qual vou contar em outro post), pude ver de perto o trabalho de Corine Borgnet em mostra: The Last Dance. 


Uma instalação artística representando uma mesa de banquete farta, coberta por uma toalha branca. Sobre a mesa, pratos empilhados, taças, bules e uma coroa central, todos feitos de ossos ou materiais que emulam estruturas esqueléticas. Ao fundo, um desenho de um coração humano envolto em arame farpado. A iluminação é dramática e sombria.

A exposição que encanta

Quando penso no local (antigo necrotério) e no título da mostra (A Última Dança, em tradução livre), já intuo um simbolismo muito relevante, porque o cenário subterrâneo, sombrio e silencioso, funciona como extensão natural do discurso da artista, que explora os códigos da vanitas com ironia e elegância. Além disso, o título — The Last Dance — sugere uma reverência final, um passo à beira do abismo.


A artista transforma o local em um cabinet de curiosités (coleção de objetos raros e extraordinários), criando uma experiência imersiva que mistura crítica social e reflexão existencial sobre a efemeridade, a memória e a fragilidade da existência.


Ao entrar no espaço expositivo, a atmosfera é quase ritualística: paredes brancas onde as obras de Borgnet ocupam o ambiente com uma força simbólica arrebatadora. Cada peça parece dialogar com a história do lugar.


Ela usa materiais cotidianos (ossos de aves, flores, cera de velas, post-it e objetos encontrados) e consegue revelar uma estética ao mesmo tempo poética e perturbadora, tornando o banal mais que precioso.


A mostra reúne esculturas, desenhos, fotografias, vídeos e instalações sonoras, que nos empurra a uma viagem entre luxo e ossos, festa e silêncio, eros e thanatos, e nos aproxima do movimento dessacralizador nas artes.


Close-up de uma coroa esculpida artisticamente com ossos, posicionada sobre uma pilha de pratos de osso em uma mesa de jantar. A coroa é encimada por uma vértebra proeminente, sugerindo uma fusão entre autoridade real e mortalidade. Ao fundo, objetos de banquete desfocados.

Sobre a artista

Corine Borgnet nasceu na França (1963) e estudou na École des Beaux-Arts de Poitiers. Em 1996, participou de uma residência artística no Cultural Center Altos de Chavón, ligado à Parsons School of Design, na República Dominicana. Viveu em Nova York por alguns anos e, desde 2002, trabalha e reside em Paris. Ela recusa um estilo fixo, preferindo uma liberdade radical que privilegia a ideia sobre a técnica. Sua obra é vista como salutar, uma resposta existencial que transforma a angústia em ironia. Sua carreira internacional inclui exposições nos Estados Unidos (ONU, Columbia University, The Phatory Gallery), Europa e Ásia, consolidando-se como uma artista plástica de linguagem singular.

 

Fotografia de uma escultura em tamanho real de um vestido de gala longo, feita inteiramente de minúsculos ossos brancos (como vértebras e costelas de pequenos animais). O manequim está em uma sala de galeria escura, iluminado por um foco de luz zenital que destaca a silhueta feminina e a textura esquelética da peça.

Quem precisa de um estilo único?

Esse tipo de experiência é sempre revelador para nós, artistas. Muitas vezes em nosso percurso de formação somos levadas a nos concentrar em um único caminho, mesmo sabendo que essa estrada não é o bastante para comunicar o que precisamos através da arte.


Eu prefiro o encantamento da experiência com os temas e materiais que me chamam, do processo, do tempo da obra e do meu próprio tempo de produção. Acredito veementemente que essa é a melhor trajetória para o desenvolvimento dos meus projetos, para minhas pesquisas dos vários códigos e símbolos que nossa sociedade nos oferece como dogmas, mas que, na verdade, são somente regras transitórias.


Plano médio, close e detalhes de  lateral da escultura do vestido de ossos. A imagem foca no torso e no quadril, revelando a complexidade da montagem: a parte superior é mais aberta e rendada, enquanto a "saia" se torna uma massa densa e sobreposta de pequenas vértebras, assemelhando-se a escamas ou bordados pesados.

 

E se você gostou deste post, talvez se interesse em conhecer outras artistas incríveis que encontrei nas minhas andanças. E, claro, fique à vontade para deixar sugestões de outros nomes de artistas que gostaria de ver por aqui.

 


Bejim,


rubrica madame

2 comentários

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FeMatosPsi
FeMatosPsi
28 de jan.

Nossa que momento especial, tanto pela fuga do frio, quanto pelo encontro caloroso com a obra linda de Borgnet. E uqe bom, temos sim permissão do mundo das artes a seguir diversos caminhos que existem dentro de nós. Ah, adorei a fotografia do texto! bjim

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Madame Pagu
Madame Pagu
há 6 dias
Respondendo a

Menina do céu! essa mostra foi uma coisa de arrepiar. Tentei, ao fazer as fotos, registrar as emoções que me atravessavam, enquanto girava entre as obras. Foi uma experiência ímpar.

beijim

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MADAME PAGU

ARTES VISUAIS & OUTRAS DROGAS

Madame Pagu is an Independent Practice based in Italy, investigating the intersections of power, identity, and memory through visual and sonic inquiry

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